Resiliência na atividade advocatícia

Cada vez mais o tema resiliência assume papel de grande destaque quando o assunto se volta ao comportamento e as atitudes mais desejadas no contexto atual. Seja âmbito pessoal dos líderes e executivos de enfrentarem aos constantes mudanças e novos desafios que surgem em um ritmo quase diário, mas também no aspecto organizacional, onde a empresa assume um comportamento de acordo com as novas demandas, intimamente atrelada às mudanças dos seus próprios líderes.

Decorrente dessa realidade compete ao presente artigo, apresentar sucintas considerações a respeito do conceito atual de resiliência, seus níveis e elementos para sua manifestação, com base no obra de Eduardo Carmello, (Resiliência: a transformação como ferramenta para construir empresas de valor. São Paulo: Editora Gente, 2008) bem como trazer este conceito à realidade da advocacia no Brasil, em especial, para à realidade dos escritórios de advocacia que atendem a empresários e seus empresas, e por isso estão carecem juntos da mudança comportamental que a mundo atual exige.

O conceito de resiliência tem origem na física e engenharia, e remete-se à capacidade de flexibilidadeelasticidade e auto­ ajuste à tesões. Este noção foi emprestada pela Medicina e Psicologia até chegar ao mundo empresarial, mais madura e abrangente. Na concepção de José Tavares, Ph.D. pela Universidade Católica de Lavaina, Portutal, resiliência é a “a capacidade de responder de forma mais consistente aos desafios e dificuldades; de reagir com flexibilidade e capacidade de recuperação diante de desafios e circunstâncias desfavoráveis; de ter uma atitude otimista, positiva e perseverante e mantendo um equilíbrio durante e após os embates.

Essa capacidade de pessoas e organizações de crescer na mudança, pode assumir quatro níveis:

  • No primeiro nível, a resiliência é manifestada na eficaz recuperação após a adversidade enfrentada. Os recursos existentes são inferiores às exigências enfrentadas;
  • No segundo nível, o próprio enfrentamento da adversidade se torna mais flexível e fluído, reduzindo próprio efeito da adversidade diminuindo consideravelmente o esforço para recuperação. Nesta situação os recursos existentes durante a adversidade são suficientes para suportar as novas exigências;
  • No terceiro nível, a atitude resiliência frente à adversidade gera resultados e proporciona um crescimento e fortalecimento. Neste caso, na ocorrência da adversidade, não se têm os recursos necessários, mas se alcança sucesso na sua obtenção a tempo de enfrentar as novas exigências. Essa mobilização frente à adversidade gera o resultado e o crescimento.
  • Por fim, no quarto nível, a resiliência assume papel de estratégia de ação, contrário ao papel passivo do agente nos demais níveis, de forma em que a adversidade é prevista e planejada, criando-se ações imediatas para geração de resultado frente ao cenário que se encontra ainda em formação. Neste nível, o agente cria recursos antecipadamente para crescer sobre a adversidade e até mesmo transformar a realidade.

Sugere-se que a resiliência pode ser construída a manifestada nas organizações mediante a aplicação de um modelo que se divide em quatro elementos expostos abaixo, que destina-se a funcionar como um roteiro para ser aplicado com objetivo de obter consistência e coerência estratégia, além de capacitação, orientação e desenvolvimento de pessoas em ambientes de mudança e turbulência. Este modelo pode contribuir para o sucesso na mudança, uma vez que a resiliência trabalha no sentido de organizar e executar meticulosamente cada uma das etapas que foram definidas no plano de negócios da organização:

  • Indivíduo/equipe/empresa: Qual o nível de adaptação dos indivíduos, equipe e da empresa à mudança? Investiga-se a maturidade de cada componente da organização frente à mudança, analisando o processo de mudança, a orientação transmitida, engajamento, buscando descrever os padrões de resposta presentes.
  • Contexto: Qual é o cenário de mudança e adversidades que a organização está inserida e quais são as características da organização que criam obstáculos e barreiras à incorporação deste cenário.
  • Tempo: Quanto tempo necessário para promover uma resposta adequada? Essa noção não se resume a analise de urgência, mas com a capacidade de apresentar respostas de forma harmoniosa com o processo de mudança.
  • Processo de intervenção da resiliência: Busca-se, enfim, definir que pode ser feito para promover o crescimento e o fortalecimento da empresa, de modo a lidar de forma excelente com as adversidades de acordo com o contexto, indivíduos e tempo da organização.

A advocacia de forma geral, mas, sobretudo àquela voltada a as demandas do mundo empresarial, estão constantemente na linha de frente abrindo caminho e recebendo os impactos das constates adversidade do mundo contemporâneo.

A advocacia empresarial lida em grande parte com a segurança dos negócios dos seus clientes, atribuindo uma estabilidade normativa as relações negociais as quais as empresas estão inseridas. Essa segurança é a base na qual se constroem operações e negócios cada vez mais volumosos e estruturados. Dessa forma, a advocacia empresarial – e o advogado em especial – não pode agir de forma passiva, aguardando a instauração de litígios para solução. Com a fluidez da realidade atual, instaurado um litígio, torrentes de outros negócios e resultados são perdidos num ritmo diário.

Do material teórico apresentado por Eduardo Carmello, três estratégias ganham destaque e aplicam-se de imediato à realidade advocatícia, (i) a visualização do futuro próximo e antecipação de tendências e acontecimentos; (ii) tornar-se protagonista das situações; e, (iii) desenvolver uma mente solucionadora

Ao advogado empresarial compete estar alinhado ao contexto que se transforma no seu ambiente de atuação, dentro do aspecto empresarial e jurídico. No aspecto empresarial, a comunicação constante com clientes é fundamental, o advogado deve estar presente e ter, em alguns casos, papel ativo na construção da estratégia empresarial, tomando conhecimento das novas tecnologias, novos canais, novas formas de fazer negócios, que são fruto da constante inovação exigida pelo contexto atual. De outro lado, no aspecto jurídico, o advogado deve se preparar fora do ambiente presente, analisar e propor ajustes normativos, identificar os conflitos entre a realidade dinâmica e a solidez das normas, especialmente alinhando-se ao entendimento de advogados de outros países, seguindo uma tendência de globalização da advocacia empresarial.

Fruto da adequada e ativa análise da realidade compete ao advogado, utilizando a mente solucionadora, criar os recursos necessários a assegurar aos seus clientes ferramentas jurídicas suficientes com o objetivo de enfrentar as adversidade nos quatro níveis de resiliência proposta: (i) reduzir os efeitos negativos da recuperação de litígios; (ii) modelos jurídicos flexíveis capazes de absorver a reduzir os impactos das mudanças e litígios; (iii) desenvolver estruturas suficientes para absorver de forma rápida e eficaz as mudanças econômicas, políticas e legais; e, (iv) desenvolver estruturar jurídicas planejadas, voltadas a antecipação de tendências e geração de resultado a frente do mercado.

A transformação da advocacia empresarial com foco no desenvolvimento de uma capacidade de resiliência, objetiva (i) uma melhor prestação de serviços jurídicos as empresas, beneficiando a segurança das relações economias; (ii) o melhor utilização de recursos e competências intrapessoais facilitando e fortalecendo a superação de desafios; e, (iii) a maior disposição organizacional para enfrentar desafios e cumprir objetivos estratégicos.

A resiliência é uma virtude lapidada pela sociedade moderna, dinâmica, veloz e globalizada. Não há tempo para estabilização de processos, práticas e métodos sólidos engessados, tampouco existe estabilidade na demanda de uma forma geral, ocorrendo a modificação de tendências de forma assustadora. Essa realidade exige um atitude ativa frente ao novo contexto, criando-se tendências, prevendo-se necessários e gerando mudanças de forma a ganhar valor e desenvolvendo a cada nova mudança e adversidade.

Caminha-se claramente para um estado onde adversidade e desafios são oportunidades para alcançar um bem maior, um objetivo estratégico global. A tarefa é ter bem claro e preciso este objetivo e estar preparado a remar por mares desconhecidos até o destino.